Efeito Hollywood: quando a Justiça se contamina com a fantasia dos filmes
- João Bosco Silvino Júnior
- 2 de dez.
- 6 min de leitura
Qual foi a primeira vez que você viu a cena de um confronto armado? Certamente foi em um filme, não? Isso é o que acontece com a maioria absoluta das pessoas. Desde a infância somos influenciados pelos conteúdos que assistimos na TV e no cinema. Acreditamos que animais falam, super-heróis voam e que o bem sempre vence. Quando crescemos um pouco e começamos a assistir a filmes de ação, ficamos admirados com a habilidade do herói em sempre acertar os tiros, com a dinâmica do combate — geralmente muito bem coreografado — e com o impacto sentido quando alguém é atingido por um disparo, quase sempre tanto maior quanto mais dramática for a cena.
Os filmes criam um modelo mental que é levado pela vida inteira e que, muitas vezes, é difícil substituir por um modelo mais realista. Os mitos criados e nutridos pelo cinema contaminam o imaginário popular, já que a grande maioria das pessoas, graças a Deus, só tem contato com esse tipo de cena na ficção.
Essa licença poética gerada pelos filmes produz um efeito que denomino “Efeito Hollywood”, o qual pode trazer danos graves e até irreversíveis — como, por exemplo, a morte de alguém que acreditava que seu oponente seria prontamente incapacitado ao ser atingido por um tiro. Não é difícil encontrar na internet vídeos de abordagens policiais em que o operador de segurança se coloca em risco por demorar a apresentar uma resposta armada diante de uma reação iminente.
Para facilitar a vida do leitor, já deixo aqui um vídeo exemplificativo dessa situação (https://youtube.com/shorts/jp9AhRSFWYM?si=Y0Oxx4e81VIeh6nY). Neste vídeo, percebe-se a grande proximidade entre um agressor de grande porte, armado com duas facas, e uma policial armada, que efetua vários disparos, interrompe a sequência em virtude de uma falha na arma, corrige a pane e volta a efetuar tiros. Analisando somente esse vídeo, é possível perceber que a distância reduzida é o principal fator complicador da ocorrência.
Já no segundo vídeo, mostrado em outro plano — com maior distância e mais completo —, é possível ver o agressor desembarcando do veículo vários metros distante da policial e avançando em direção a ela, já portando as duas facas, enquanto a agente verbaliza para que ele largue as armas. Percebe-se que, pela grande distância, a policial julga estar em segurança e talvez imagine que precisa esperar até o último momento para iniciar a ação letal.
Veja o vídeo:
Analisando a cena completa, a pergunta que lanço é: por qual motivo a policial não começou a atirar antes? As razões podem ser várias, mas acredito que ela pensou que, ao sofrer o primeiro tiro, o agressor tombaria imediatamente, já incapacitado — como nos filmes. Outra possibilidade seria o receio de ser condenada por excesso na legítima defesa, o que nos conduz ao objeto do presente artigo.
Quando a pessoa contaminada por esse “efeito Hollywood” é um operador do direito — como um delegado, promotor, defensor público ou juiz — ou até mesmo um jurado, o resultado pode ser a condenação indevida de alguém que agiu em legítima defesa. Isso porque tais julgadores podem ter em mente o modelo fictício dos filmes, no qual um tiro arremessa uma pessoa para trás, incapacitando-a instantaneamente, tornando injustificável, em sua visão, a necessidade de mais de um disparo em um confronto real.
É sobre esses mitos que vamos tratar neste artigo.
O mito do impacto do tiro
Abrindo a coleção de mitos, vamos tratar de um clássico: o “impacto do tiro”. Desde os filmes de faroeste, passando pelos clássicos de Charles Bronson até chegar ao atual John Wick, Hollywood sempre retratou de maneira muito exagerada o impacto de um tiro no corpo humano. Em alguns casos, a pessoa alvejada é arremessada metros para trás, como se a terceira lei de Newton — ação e reação — não existisse.
Esse mito faz com que as pessoas acreditem que alguém atingido por um projétil sente um impacto semelhante a um soco, algo que a empurra para trás, o que não é verdade. O relato mais consistente de pessoas atingidas por tiros é que simplesmente não sentiram o disparo no momento em que ocorreu.
Como exemplo, cito dois casos conhecidos: o do deputado Cid Gomes, atingido no peito por dois disparos quando tentou invadir um quartel da PM com uma retroescavadeira, e o do delegado Paulo Bilynskyj, alvejado seis vezes em uma situação domiciliar. Em ambos os casos o relato é semelhante: só perceberam que foram atingidos ao ver o sangue decorrente dos ferimentos.
Hollywood mostra que um tiro de espingarda é capaz de lançar um corpo longe. Mas será que isso acontece na vida real? É possível que mesmo um leigo imagine que não é bem assim, mas seria um tiro capaz de derrubar alguém simplesmente pelo impacto?
Veja o vídeo seguinte, que mostra um experimento controlado para demonstrar esse ponto:
Um tiro e um tombo: o mito da incapacitação imediata
Ao lado do mito do impacto, existe o mito da incapacitação imediata. Nos filmes aprendemos — ou melhor, desaprendemos — que uma pessoa sempre cai instantaneamente ao ser atingida por um tiro.
Na vida real isso só ocorre quando uma região específica é atingida: o sistema nervoso central (SNC) ou determinados pontos da coluna, especialmente a região cervical. Se o tiro não atinge essas áreas, a incapacitação não é imediata e pode levar segundos, minutos ou até não ocorrer.
Isso significa que o agressor pode manter plena capacidade de ação, inclusive alcançar, desarmar ou matar a pessoa que se defende antes de ser incapacitado.
Diversos vídeos reais disponíveis na internet evidenciam isso — inclusive o já mencionado neste artigo.
O herói sempre acerta os tiros
É impressionante: nos filmes, o índice de acertos dos heróis é altíssimo. Muitas vezes, um único protagonista acerta todos os seus inimigos. Às vezes, ele nem está olhando para o alvo, mas ainda assim acerta.
Um exemplo clássico desse absurdo é o filme Comando para Matar, com Arnold Schwarzenegger. Ele combate praticamente um exército, atira com um braço só e elimina todos com precisão perfeita.
Mas será que confrontos reais contam a mesma história?
Uma excelente ferramenta para responder a isso é o relatório LEOKA (Law Enforcement Officers Killed and Assaulted), elaborado pelo FBI.

Tabela 1 – Número de policiais vítimas que descarregaram suas armas. (Fonte: https://ucr.fbi.gov/leoka/2019/topic-pages/tables/table-18.xls)

Tabela 2 – Detalhamento da Tabela 1, mostrando o percentual de acerto dos policiais americanos que descarregaram suas armas em confronto.
Observando as tabelas, é possível notar que o índice de acertos em combate é extremamente baixo. O índice de 18,3% indica que, a cada cinco tiros efetuados, o policial americano acerta apenas um. Isso ocorre porque, em confronto, tanto o policial quanto o alvo estão em movimento, sob estresse e trocando tiros — ambiente completamente diferente de um estande.
O mito do ferimento de tiro e do jorro de sangue
Outro mito comum é o tamanho dos ferimentos de tiro e o jorro de sangue que aparece nos filmes. As produções exageram absurdamente esses efeitos. Não que não haja sangramento, mas a quantidade é muito menor do que o cinema sugere.
Os ferimentos de entrada, especialmente de calibres de baixa velocidade, costumam ter dimensões pequenas — muitas vezes menores que o próprio diâmetro do projétil, devido à elasticidade da pele. Mesmo munições expansivas (“balas dum-dum”) não produzem, na entrada ou na saída, o efeito dramático mostrado na ficção.
Em muitos casos, o ferimento pode até passar despercebido, seja por pouca vascularização da área atingida, seja porque o tecido adiposo consegue tamponar o orifício, seja porque o sangue escoa para cavidades internas, sem jorrar externamente.
Isso produz um problema sério: quem se defende nem sempre consegue perceber se acertou ou não o agressor. Como não há impacto visível e nem jorro de sangue imediato, muitos efetuam mais disparos acreditando que os primeiros não atingiram o alvo, gerando a falsa impressão de “excesso”.
Conclusão
São muitos os mitos sobre confrontos armados disseminados por filmes e novelas. Isso faz parte do entretenimento, que usa a licença poética para tornar as cenas mais emocionantes.
O problema surge quando transportamos essa fantasia para a realidade. Esses mitos moldam opiniões distorcidas — inclusive entre operadores do direito — que podem influenciar decisões graves, como julgamentos de legítima defesa.
Por isso, é essencial buscar conhecimentos reais, baseados em bibliografia séria, cursos de capacitação e aproximação com a prática policial, ao invés de permitir que Hollywood dite como funciona um confronto armado, influenciando até mesmo ditos “especialistas em segurança pública” a acreditar que seria viável ou recomendável combater com pedras traficantes armados com fuzis.
João Bosco Silvino Júnior é Perito Criminal Oficial da Polícia Civil de Minas Gerais, autor de livro e cursos nas áreas de Balística, Local de Crime e Perícias em geral. É também Instrutor de Armamento e Tiro credenciado pela Polícia Federal e atirador esportivo. Possui graduação e mestrado em Engenharia Elétrica, atuando professor em diversos cursos táticos e de pós-graduação pelo Brasil. É também palestrante em diversos eventos científicos de Criminalística.



Professor João Bosco sempre muito didático e mostrando a realidade com testes, o que nao deixa margem para dúvidas. Parabens professor. Uma verdadeira aula esse artigo.
sempre uma aula! parabéns, meu velho!!
Muito bom. Ideal para novos policiais ou para os que ingressam na academia para se tornarem um.
Excelente estudo. Parabéns pela entrega de alto nível e clareza do conteúdo.