Quem chora por Juliane?

 

O silêncio vergonhoso revela a solidariedade seletiva dos gigolôs de cadáveres convenientes 

 

 

Juliane dos Santos Duarte era pobre, negra e homossexual. 

 

De folga no serviço, participou de um churrasco na casa de um casal de amigos na favela de Paraisópolis.  De lá, deu uma esticada para tomar uma cerveja, com duas amigas, no "Bar do Litrão", na favela.  

 

Quando já se preparava para sair,  Juliane foi alertada da ocorrência de um furto do celular de uma das frequentadoras do bar. Foi quando  resolveu se identificar como policial,  visando  recuperar o aparelho. 

 

Em questão de minutos, quatro homens encapuzados acorreram ao bar e, após inquirirem os frequentadores sobre quem deles seria a policial, dispararam contra ela e a levaram para local desconhecido. 

 

Dias após o sequestro, a motocicleta de Juliane foi estacionada por um dos celerados, fora da favela.  

 

O caso está sendo acompanhado pelo delegado Antonio Sucupira, do 89º DP, do Portal do Morumbi -  tratado até pouco tempo como "desaparecimento".  

 

 

Silêncio que grita

 

 

Juliane foi ferida a bala, sequestrada, provavelmente torturada e morta, por marginais traficantes. 

 

Desparecida há vários dias, embora sua mãe, que sofre de câncer, implore pela mídia (a que lhe deu ouvidos), que lhe entreguem ao menos o corpo da filha,  Juliane não recebeu declarações oficiais de apoio. 

 

Não ocorreram discursos parlamentares inflamados - que não fossem dos colegas de profissão de Juliane. Nenhum organismo governamental ou não governamental se habilitou para acompanhar o caso ou protestar contra a criminalidade que corre solta na favela de Paraisópolis. Não houve, tão pouco,  reação de revolta na "comunidade" onde ocorreu o fato. 

 

Juliane  não é militante esquerdista, não é líder feminista, não é "liderança" comunitária. No entanto, trabalhava diuturnamente na proteção da vida das pessoas, em prol da segurança da comunidade, em defesa da sociedade e do Estado Democrático de Direito. 

 

Por tudo isso, o silêncio em torno da tragédia de Juliane... grita!

 

 

Juliane era Policial Militar 

 

Lotada em uma companhia que faz patrulhamento no Jabaquara, bairro da zona sul da cidade. Policial militar há dois anos, Juliane era o arrimo da mãe, Cleusa dos Santos, 57,  com quem morava, e que sofre de câncer na medula óssea, em São Bernardo do Campo. 

 

Apesar de Juliane dos Santos Duarte ser "pobre, negra e homossexual", a sempre ativa mídia e a  militância desses segmentos permaneceu em silêncio. 

 

Embora Juliane fosse policial militar e, em função disso, ter sido covardemente ferida e sequestrada por celerados, as autoridades continuam encolhidas. Tratam o caso "com toda a discrição" - como se investigações e diligências discretas pudessem ser confundidas com o DEVER de  vociferar contra o crime e em defesa dos agentes da lei. 

A covardia típica de vermes, ante  as ratazanas amestradas que detém a hegemonia ideológica e cultural na mídia, é evidente.

 

A constatação é clara. Somos governados e obrigados a conviver com autoridades, meios de comunicação, corpos intermediários da sociedade civil organizada, ONGs,  partidos políticos e cidadãos que praticam a solidariedade seletiva. Gente que se indigna por interesse político-cultural, não por princípios éticos e morais. 

 

 

Solidariedade Seletiva

 

A solidariedade e a indignação foram ideologicamente "sequestradas" para servir à dissimulação, pintada em várias cores por abutres de toda ordem - políticos oportunistas, militontos de causas oportunas, minorias sectárias, idiotas do politicamente correto, jornalistas teleguiados e palpiteiros cibernéticos.  

 

Esses gigolôs de cadáveres convenientes costumam desconstruir tragédias, para sobre elas erguer  muralhas de pretextos. Quando a qualidade do cadáver não o permite, permanecem calados. 

 

Não há nada mais desprezível que reagir "seletivamente" a um terror que atinge a todos, indiscriminadamente - a violência urbana e a criminalidade.  Isso é reduzir a  alma a uma mentira. 

 

Eubulides de Mileto, filósofo grego, no Século 4 a.C. perguntou: “Um homem diz que está mentindo. O que ele diz é verdade ou mentira?”

 

O paradoxo do mentiroso de Mileto aplica-se aos sofismas vomitados pelos abutres proselitistas, ou por eles engolidos em prol do silêncio conveniente,  em função da tragédia que lhes seja conveniente. Senão vejamos: 

 

Militantes dos Direitos Humanos, desconversam sobre condenar o ocorrido na favela de Heliópolis. visam com isso "reduzir os danos" ocasionados, pela ação criminosa, ao "processo de vitimização da comunidade" em relação à "agressão policial" e ao "preconceito social".   Ideólogos do gênero calam-se  ante a ação covarde praticada contra uma mulher homossexual. Afinal, manifestações homofóbicas provindas de marginais (em tese "vítimas da sociedade"), não contam... muito menos feminicídio. 

 

Em verdade, o crime não discrimina, ele é perverso, desesperado, covarde, homofóbico, misógino, infanticida, teocrático, liberticida, etc... 

 

A solidariedade seletiva externa um profundo egocentrismo social. Esse sentimento mesquinho encontra-se presente nas manifestações oportunistas dos gigolôs da dor alheia, e, também, nos seus vergonhosos silêncios.  

 

Ao contrário de tragédias convenientes, usadas e abusadas como "arma contra a ordem" pela militância parasita, o martírio da policial militar Juliane não é "útil". 

 

 

Juliane é mártir

 

A palavra mártir vem do grego martys, martyros, que significa testemunha. 

 

O mártir presta o testemunho de sua fé com o derramamento do próprio sangue.  O martírio é o primeiro testemunho de fé na história da civilização humana. Na fé cristã, requer-se que o mártir morra livremente, ou seja, aceite conscientemente o risco de morrer por causa da sua fé.  Esse fenômeno decorre do compromisso.

 

A aceitação da morte pode ser explícita, e também pode ser implícita -  quando a pessoa sabe que seu compromisso pode levá-la até a morte e, não obstante,  permanece fiel a esse compromisso.

 

Juliane dos Santos Duarte, é mártir. Permaneceu fiel ao seu compromisso. Revelou-se policial quando se fez necessário agir em prol da ordem, sofreu e morreu exatamente por isso. 

 

O martírio, o heroísmo de Juliane, passada uma semana de seu desaparecimento, não causou indignação na comunidade anestesiada pela ordem de valores invertidos, não mereceu protestos dos grupos de defesa de "minorias", não ganhou homenagens ou cobranças de solução do crime por lideranças partidárias e autoridades, não recebeu solidariedade explícita de padres de passeata ou pastores idem.

 

 

Bioma do mal

 

Esse cipoal de omissões revela relações comprometidas com verbas federais e de  organismos multilaterais, que sustentam organizações não governamentais que sobrevivem da vitimização social. Encobre entidades internacionais interessadas em se imiscuir na soberania do Brasil por qualquer meio disponível - incluso carcaça de cadáveres que interessam. Envolve profissionais que vivem das ações criminosas e sobrevivem da repressão frágil à criminalidade. Protege uma polícia que finge reprimir e um judiciário que finge punir.  

 

É todo um "ecossistema" simbiótico, que se sente vivamente ameaçado por tragédias que fujam do estereótipo previamente traçado e da prática do proselitismo, que o justifica.  

 

O silêncio sobre o "desaparecimento" de Juliane, da mesma forma que a grita sobre a  morte de Marielle, servem ao mesmo "bioma do mal". 

 

O preconceito salta á vista. Como uma policial militar poderia estar de folga, passeando em uma favela? Frequentar uma periferia? 

 

Só ignorantes não percebem que policiais vêm desses mesmos lugares, e vivem ali, nos bairros carentes, nas favelas - e nem por isso deixam de ser dignos por isso, tanto quanto os demais habitantes desses lugares. 

 

O pré-julgamento é algo tão covarde quanto o silêncio pusilânime das autoridades de governo. 

 

Por fim, como não constatar a outra verdade inconveniente? A de que São Paulo já possui áreas inteiras dominadas pela ordem do crime organizado? 

 

Como não constatar que, em Paraisópolis, policiais não podem se revelar? Que ali, o território pertence a outra república soberana?

Como não ver que o establishment, que comanda o estado paulista e brasileiro há décadas, perdeu o controle territorial para o tráfico de drogas? Como não ver que o dinheiro vivo do tráfico corre solto nas favelas, fazendo girar a economia paralela, dando emprego a menores - proibidos de trabalhar de outra forma na economia formal, por conta da hipocrisia esquerdista travestida de regra constitucional?

Como não testemunhar que esse bioma do mal foi alimentado pelo cinismo desarmamentista, que deixou a população à mercê de marginais aparelhados belicamente, e atou as mãos da polícia - firmando acordos espúrios com facções criminosas em troca de benesses estatísticas?  

 

Que moral governantes, candidatos, partidos, possuem, para propor o que quer que seja, se não conseguem assumir a realidade do fracasso e, preferem a covardia do silêncio?

 

 

Antonio Fernando Pinheiro Pedro é advogado (USP), jornalista   e  consultor  ambiental.  Sócio  diretor  do escritório Pinheiro Pedro Advogados.    Integrante do Green Economy Task Force da Câmara de Comércio Internacional,  membro  do  Instituto  dos Advogados Brasileiros  –  IAB.  Vice-Presidente  da  Associação Paulista  de   Imprensa  -  API,  é  Editor - Chefe do Portal     Ambiente    Legal,    do    Mural    Eletrônico DAZIBAO e  responsável pelo blog The  Eagle  View.

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